Budismo: O Pastoreio do Boi
Através da obra de Roque E. Severino sobre o I Ching tomei conhecimento dos Dez Quadros do Pastoreio do Boi, um clássico da tradição zen-budista da autoria do mestre Kaku-as Shi-en. Uma preciosidade que quero partilhar.
1º A busca do boi
O touro nunca se perdeu, de que serve procurá-lo?
O touro perdeu-se porque o pastor afastou-se do caminho ao seguir o engano dos seus sentidos.
A sua casa está cada vez mais distante e se confunde em encruzilhadas e desvios.
O desejo da ganância e o medo da perda ardem como fogo.
As ideias sobre o que é correcto e o equivoco nascem como aranhas.
Sómente no ermo, perdido no bosque, o rapaz procura e procura!
As águas borbulhantes, as montanhas distantes e o caminho sem fim.
Exausto e desesperado ele não sabe o rumo que deve tomar.
Sómente ouve as cigarras que cantam na tarde dos bosques de pinheiros.
Com a ajuda dos sutras e estudando as doutrinas compreendeu alguma coisa e encontrou pegadas.
Por mais longe que a besta ande pelos montes o seu nariz chega aos céus e ninguém pode ocultá-la.
Porém, quando olhar apropriadamente verificará que não é outro senão ele mesmo.
Mais além, num galho, ouve um rouxinol que canta alegremente.
O sol é cálido, sopra uma brisa suave e os chorões nas costas são verdes.
O Boi está totalmente junto a si, e em nenhum lugar tem de se esconder.
Com a sua esplêndida cabeça ornamentada com imponentes chifres como é que um pintor poderia reproduzir a sua imagem?
4º A captura do boi
Ele sente saudade do velho campo de aroma doce.
Se o pastor deseja ver o boi em total harmonia com ele, terá de usar com segurança e generosamente o chicote.
Com toda a energia do seu ser o pastor pegou por fim o boi.
Porém que vontade selvagem é a dele, que ingovernável é o seu poder!
Ocasionalmente marcha arrogante pelos montes e rápidamente se perde outra vez na montanha, num nebuloso e impenetrável passo.
5º O pastoreio do boi
Assim acorda uma caravana interminável de pensamentos.
Através da iluminação tudo é verdade; porém a falsidade afirma-se quando a confusão reina.
As coisas não oprimem devido a um mundo objectivo e sim devido a uma mente que se engana a si mesma.
Não se deve deixar sózinho o boi manso mas sim mantê-lo ajustado, sem consentir vacilações.
O pastor não se deve separar do seu chicote nem da sua corda para que o animal não se torne num vagabundo, distante, num mundo de porcaria.
Quando é tratado apropriadamente, cresce puro e dócil.
Por si só seguirá o pastor, sem cordas nem nada que o amarre.
6º De volta a casa, montado no boi
A luta já passou.
O homem já não se preocupa com ganhos ou perdas.
Ele vai cantando uma musica campestre de lenhadores.
Parece uma criança simples.
Montado no lombo do boi os seus olhos fixam-se em coisas que não são da Terra.
Ainda que o chamem ele não volta a sua cabeça.
Ainda que lhe supliquem ele não fica para trás.
Montado no animal ele volta lentamente para sua casa.
Envolto na névoa vespertina, que harmoniosamente se desvanece, ele toca a flauta!
Entoa uma canção compassada, o seu coração enche-se de graça indescritível.
Tem de se dizer que ele é agora um dos que conhece.
7º O homem fica só quando se esquece do boi
Os Dharmas são um e o boi é simbólico.
E então compreendemos que não necessitamos das armadilhas mas sim da lebre ou do peixe, e que isso é o mesmo que o ouro separado das suas impurezas ou à lua livre de nuvens.
O raio luminoso, único, sereno e penetrante brilha inclusivé antes dos dias da criação.
Por fim, ele está de volta a casa montado no animal.
O boi desapareceu e o homem sómente se senta sereno.
O sol ainda está vermelho no alto do Céu, ele ainda sonha em sossego.
Sob o tecto de palha o seu chicote e a corda estão largados ociosamente.
8º O boi e o homem desaparecem da vista
Toda a confusão fica de lado e sómente reina a serenidade.
Nem sequer subsiste a ideia de santidade.
Não medita sobre onde está o Buda e, com rapidez, nega-se a pensar sobre onde não há Buda.
Quando não existe forma de dualismo, nem sequer um ser de mil olhos logra encontrá-lo.
A santidade ante a qual os pássaros oferecem flores não é senão uma farsa.
Tudo está vazio, o chicote, a corda, o homem e o boi: quem poderia sequer examinar a vastidão do céu?
Sobre o forno que arde em chamas não pode cair um só copo de neve.
Quando subsiste este estado de coisas está manifesto o espírito do antigo mestre.
9º Volta à origem, regresso à fonte
Desde o princípio, mesmo puro e imaculado, o homem nunca tem sido afectado pelas manchas.
Observa como crescem as coisas e, no entanto, mora na imóvel serenidade da não afirmação.
Não se identifica com as transformações das aparências que estão ao seu redor.
Nem aproveita nada de si.
As águas são azuis, as montanhas são verdes.
Ele sentado, sózinho observa as coisas que experimentam as mudanças.
Voltar à origem, retornar à fonte, este é já um passo em falso!
Muito melhor é ficar em casa, cego e surdo, sem muito alvoroço.
Sentado em casa não toma conhecimento das coisas exteriores.
Observa as correntes que fluem para onde ninguém sabe e as flores vermelho vivo para quem são?
10º Regresso à cidade com as mãos que oferecem a bem-aventurança
A porta de sua cabana está fechada e nem os mais sábios o conhecem.
Não se captaram vislumbres da sua vida interior pois ele percorre o seu caminho sem seguir os passos dos antigos sábios.
Leva uma cabaça e entra no mercado apoiado no seu cajado e chega a sua casa. Vai acompanhado por bebedores de vinho e talhantes.
Todos se converteram em Budas.
Descalso e com o seu peito nu entra na praça do mercado.
Tem lama e cinzas no seu corpo mas o seu sorriso é luminoso!
Não é necessário o poder milagroso dos deuses. Com um só toque as árvores mortas florescem em toda a sua plenitude.
A Luz seja convosco.
